Julgamento de Raças Zebuínas

O padrão racial, morfologia, critérios de julgamento, diferenças entre cada raça, docilidade são alguns dos tópicos analisados durante uma exposição de gado pelos jurados. Para adquirir este título precisa se de curso, e ser assistentes em algumas exposições. Finalmente ser aprovado na prova final, e sim, ir as pistas para escolher os campeões. Sempre levando em consideração o olhar crítico e justo.

Ao explicar sobre o julgamento, convidamos o zootecnista e uberabense Inácio Martins Neto, sócio e proprietário da empresa Ápice Assessoria Pecuária. Possui em seu currículo jurado efetivo das raças zebuínas, onde já realizou o julgamento em grandes exposições e em diversas raças.

– Qual é o critério para se tornar um jurado? Tem que ser formada em alguma área relacionada com o agronegócio? Quais são os pré-requisitos para realizar o curso de julgamento?

“A primeira etapa é o curso de julgamento, é realizado duas vezes por ano, em Janeiro e Julho, é feito na sede da ABCZ em Uberaba – MG. É aberto ao público, qualquer pessoa pode fazer, sendo da área ou não. Agora, quando você quer se tornar jurado, tem que ter formação em três áreas específicas: zootecnia, veterinária ou agronomia. Se você é formado em alguma dessas três áreas a primeira etapa é fazer o curso. Logo após o curso, você entra em contato com a ABCZ e pede a carteirinha de auxiliar.”

– O que significa a carteirinha de auxiliar?
“Serve para você
auxiliar os julgamentos, você entra em uma fila de espera aonde você vai auxiliar os jurados. Um exemplo – Vai ter uma exposição em Avaré – SP, tem um jurado efetivo da ABCZ que a associação escolhe, e vai ter um jurado auxiliar. Aonde esse jurado auxiliar vai acompanhar todo o julgamento, vai dar suas opiniões, talvez fazer alguns comentários no microfone para o público, e nessa hora ele está sendo avaliado pelo jurado. Então esse jurado auxiliar, além de estar acompanhando o julgamento e assistindo como funciona a didática, ele está sendo avaliado, tanto dentro de pista como fora de pista, comportamento, horário, questão de informação, do julgamento propriamente dito, a gente faz algumas perguntas para os auxiliares para saber como eles estão sabendo sobre as raças. Então esse auxiliar está sendo julgado, e tem alguns requisitos que são o seguinte, ele tem que auxiliar, dentro de 3 anos, no mínimo 15 exposições, com 3 raças diferentes, sendo 7 jurados diferentes, quando finalizar esse procedimento, o auxiliar precisa ter um parecer positivo dos jurados de 70%, quando ele conseguir todos esses requisitos, o auxiliar vai até a ABCZ e pede a prova para se tornar jurado efetivo. Essa prova é realizada uma vez ao ano, geralmente no final do ano, que consiste na parte teórica, depois que aprovado na primeira prova, faz a prova prática, que faz um julgamento em uma fazenda para a bancada da ABCZ para confirmar se ele está apto em fazer parte do colégio de jurado. Assim que ele passar nas duas provas, ele recebe a carteirinha de jurado efetivo da ABCZ, e tem que esperar os convites para ser convocado para os julgamentos, e ele está apto para julgar qualquer raça zebuína. Então, o critério é esse.”

– Qual a maior dificuldade para um jurado duranteuma a exposição?

“A dificuldade Victória, realmente é do início até o fim. Pois são muitos itens que temos que avaliar. Então é algo muito delicado, muito perspicaz. A gente está lidando com animais que ficam estressados, tem dias que não se comportam bem, tem dias que os animais conseguem parar e ficar tudo certinho, a gente tem que avaliar tudo isso. Então a dificuldade é geral, do início até o fim.Agora, a maior dificuldade, que a gente tem, é a questão quando a gente fala em campeonatos. Por que os julgamentos são divididos em categorias, depois as categorias viram em campeonatos, e os campeonatos viram em grande campeonato. Então quando fala de campeonatos e grande campeonato a gente está falando de animais que já deixaram outros animais para trás nas categorias. Então são animais muito bons, e muito eficazes. A diferença de um animal para outro, é mínima, por isso tem que ter muito cuidado nesses momentos, pois pode penalizar algum animal. Na hora dos campeonatos e do grande campeonato é a maior dificuldade que tem ao escolher um animal, porque são animais que todos os criadores, apresentadores fizeram de tudo, deram a vida para estarem nesse momento, para poderem participar desses campeonatos. Então tem que olhar critério por critério, detalhe por detalhe, para ter a consciência de que está escolhendo o melhor animal daquela exposição. Então, resumindo, a maior dificuldade é a qualidade que os animais estão em pista, os animais estão muito pareio.”

– Quais são os critérios que um jurado analisa para realizar um desempate?

“Não existe um critério para você realizar um desempate. Vou te dar um exemplo. Vamos supor que os animais sejam muito equivalentes em área linha dorso-lombar, em aprumos e um animal tem a caracterização racial melhor do que o outro, então o desempate desses dois animais vai ser a caracterização racial. Mas podemos escolher o outro animal aonde a caracterização racial, a linha dorso-lombar, o comprimento e abertura de costela são todos pareios, mas um animal possui melhores aprumos que o outro animal, nesse quesito vai ser a questão dos aprumos. Então não tem como falar qual é o critério que se usa, são vários, vai depender dos animais que estão sendo avaliados.”

Qual é a raça apresenta maior dificuldade para julgar, porquê?

“Na verdade não é uma raça só, são as raças de dupla aptidão. Então podemos citar o Gir padrão com o Girleiteiro, Guzerá padrão e o Guzerá leiteiro, e a raça Sindi. Então essas raças são consideradas de dupla aptidão, tanto para a produção de carne quanto para a produção de leite. Temos que achar o meio termo entre essas duas características, por esse motivo são raças mais difíceis de serem julgada. Quando a gente está julgando a raça para leite, então tem uma linha, quando tem uma raça para julgar para corte, a gente segue outra linha. Mas quando está julgando para dupla aptidão, tem que encontrar a linha do meio para a aptidão de leite e carne. Por isso, são as raças de dupla aptidão que apresentam maiores dificuldades.”

– Em assessoria nas fazendas, o Sr. analisa o rebanho de acordo com os mesmos critérios realizados dentro das pistas?

“Sim. Os critérios são os mesmos. O que a gente vai ter em uma fazenda é um número muito maior de animais, então a gente vai avaliar justamente o que a gente avalia em pista. A pista, nada mais é do que uma seleção, muito mais afunilada para poder fazer os animais a campo. Os animais tem que ter o mesmo padrão racial, tem que ter as mesmas características. Então a gente avalia a caracterização racial, comprimento linha dorso-lombar, arqueamento de costelas, aprumos. Nas matrizes, avalia a aptidão leiteira, os bezerros desmamados, no macho a parte reprodutiva. Então, a avaliação é a mesma, não tem diferenciação.”

Como o Sr. começa a avaliação dentro das pistas?

A avaliação de todo julgamento começa com os animais rodando, os animais em movimento. Então quando os animais estão em movimento, a gente avalia a parte de aprumo, o comprimento, as costelas, a gente vê o animal em movimento, se apresenta algum problema de aprumo, nos boletos, nos jarretes, se está com as mãos abertas ou fechadas. Depois esses animais param e ficam alinhados um ao lado do outro, e assim começa a avaliação comparativa, entre um animal com o outro, para saber qual está melhor para fazermos a classificação. Primeiramente começa olhando os aprumos em movimento, e em seguida, avalia os animais parados. Avalia individualmente animal por animal. Depois o conjunto de cada animal, entre caracterização racial, desenvolvimento e aprumos, comparando com outro animal, para saber qual deles é o melhor classificado.”

– Qual a importância econômica para um animal campeão em uma exposição?

“Quando estamos avaliando os animais dentro de uma exposição, estamos avaliando a comparação entre eles. Então se um animal é campeão em uma exposição, ele é melhor do que os indivíduos obviamente. E como já citei anteriormente, avaliamos a característica racial, reprodutiva, ganho de peso, desenvolvimento. Então, um animal que ganha uma exposição é mais valorizado, pois estamos buscando animais superiores, animais que vão agregar características, coletar sêmen, coletar embriões, oócitos, para proliferar a genética no Brasil. Logo, o animal campeão é bem valorizado porque já é um animal diferenciado, só de ter ido para uma exposição, pois só levamos a uma exposição os melhores animais da fazenda. Quando chegamos a uma exposição encontramos 30 a 40 fazendas com os melhores animais. Então, o animal campeão foi o melhor entre todas as fazendas. Economicamente, é bastante valorizado pois vai difundir a genética dele.”

– Como é feita a seleção genética para um animal se tornar um campeão dentro das pistas?

“Começa no acasalamento do macho e da fêmea. Tudo é feito através de erros e acertos, a seleção genética vem acontecendo desde a época dos avôs, bisavôs. Há anos atrás. Hoje com a tecnologia tem a variação genômica, o que ajuda bastante a fazer essa seleção genética. Pois vamos ter alguns índices que já vão nos dizer quais são as características que passarão para os seus filhos. Porém, é de longo prazo, pode se dizer que 90% é feio “no olho”, onde um técnico, o criador, o pessoal do manejo no curral vão passando “o olho”. E assim, vamos olhando o que precisa melhorar em algum animal, como altura, ganho de peso, e juntamente com os dados das centrais, temos as informações para realizarmos os acasalamentos direcionados. Para ajudar a natureza a produzir um animal com as características desejadas e corrigir algumas. Depois vai para o regime especial, onde tem o aleitamento adequado, toalete, amansar de cabresto. É um trabalho a longo prazo.”

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Victoria Hueb

Graduanda em Medicina Veterinaria pela Universidade Federal de Uberlândia. Nascida e criada por pecuaristas da região de Uberaba e Campo Florido. Apaixonada por cavalos e seus esportes!

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